Tristeza pouca é bobagem



Inicialmente meu silêncio era indignado. Começou com a demolição da casa de Zélio. Não me conformei com tudo o que aconteceu.

De repente, nada restava. Simplesmente acabou. Tal como acontece aos homens, parecia que sua importância histórica iria ser lembrada e enaltecida quando próximo da extinção. Mas nem isso, rapidamente o assunto já voltou ao limbo do esquecimento.

Era para acontecer a destruição anunciada, e nenhuma pedra se moveu prenunciando a extinção. Quem viu as últimas fotos da casa de Zélio de Moraes antes de sua queda final, verificou que com certeza a Defesa Civil a condenaria, pois já era uma ruína. Nem os parentes de Zélio, nem os seus filhos ou netos no santo, nenhum adepto com um pouco mais de condição. Nem a tenda remanescente, nem meu pobre lamento solitário.

Nada, nada salvou aquele lugar que um dia foi abençoado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, onde foi erigida a primeira tenda umbandista do Brasil e do mundo, a Tenda Nossa Senhora da Piedade.

A comprovação física apagou-se na poeira, e da indignação veio a tristeza, e da tristeza veio o desconsolo. Só não foi maior porque sei que as bases espirituais ainda estão vívidas e assim continuarão de acordo com a vontade de Zambi. A Tenda Nossa Senhora da Piedade vive, sob o teto da Cabana de Pai Antônio.

Não tenho, no entanto, mais vontade de escrever. Não consigo me identificar com as letras. Não estou desiludido com a Umbanda, de modo algum, pois ela faz parte da minha vida. Mas porque não vejo luz no final do túnel para essa babel que aí está, que só traz desunião e trava os atos verdadeiramente necessários.

Nada adiantam palavras bonitas, fraseados requintados, desafios ao intelecto, sob a alcunha de estudo da Umbanda, iluminação dentro da Umbanda, se não vejo caridade em ação, não vejo desprendimento, só vejo comodismo.

Quem sabe o Caboclo das Sete Encruzilhadas permitindo esta demolição, lavrou o fechar de uma Era? Ou demarcou uma divisão de águas, antes e depois do desaparecimento da pedra fundamental que deu início à nossa religião?

Estou triste porque parece que vejo somente pedintes na religião que amo. Todos querem reza, desmanchar trabalhos, pedir proteção, acender uma vela para pedir algo.

A imensa maioria não comparecerá se for pedido para varrer seu terreiro, esfregar o chão, ou lavar os banheiros e vestiários, preparando-os para a próxima gira. Preocupam-se sim, em parecer bem, bonitos e engomados nas giras festivas, reluzentes e impecáveis.

Não se animam se tiverem de pintar as paredes, ou visitar um irmão no hospital, ou dar mais alguns reais para completar a mensalidade de quem não conseguiu pagar naquele mês.

Não conseguirão fechar os ouvidos se um irmão cair e houver escândalo. Não se calarão sobre comentários desairosos sobre um(a) médium que se perdeu nas voragens das trevas.

Como estarão preparados para salvar as raízes da Umbanda. Será que sabem ao menos que raízes são estas?

Ontem ouvi um médium novo dizer que recebeu este e aquele recado de Seu Marabô. Perguntei se ele sabia quem era Seu Marabô. E ele disse que não. Então, rapaz, como você sabe que foi Seu Marabô ou alguém de sua falange que realmente lhe disse tudo aquilo? Ele nada pôde responder....

Onde está cada um na Umbanda, fora dos passos complicados das giras festivas? O que é para cada um, vestir o branco, o que significa e que responsabilidades lhe traz, o que está fazendo ali, despojando-se de todo e qualquer interesse e entregando-se aos guias? Por que faz isso e em nome de quem? Qual a história, ponto cantado e escrito de cada um de seus guias de sua coroa? Por que eles pertencem a essa coroa?

Quantas queixas, pedidos e lágrimas derramou ao pé das velas nessa semana? Quantos trabalhos fez para obter algo?

Mas antes de tudo, qual a boa ação que cada um fez hoje, ou ontem ou anteontem?

Estou triste e cansado, tenho preferido o silêncio e a introspecção, pois as palavras que tentei escrever anos afora, parecem grãos soprados no vento do deserto. Talvez com meu silêncio, possa perceber quem ainda está acordado, no meio deste marasmo que parece cobrir tudo e todos.


Este ano a Umbanda fará 103 anos, ela sobrevive, mas nós Umbandistas estamos vegetando por nossa mesquinhez, por nossa falta de amor ao próximo e falta de caridade. Eu amo a Umbanda, mas estou começando a ficar com vergonha de dizer que sou Umbandista, não por querer esconder a minha religião e sim por querer esconder quem são meus irmãos, eu não sou igual aos que vejo dizendo-se Umbandistas e nem mesmo sabem o que realmente é ser Umbandista.

Eu tenho vergonha de ser seu irmão!

De quem prefere ficar no silêncio...


Alex de Oxóssi
Rio Bonito - RJ


P.S.: Apenas para constar, já faz mais de 30 dias que nem mesmo a minha caixa de e-mail eu abro.

2 comentários:

Claudia Souza disse...

Entendo e compartilho sua indignação
mas a Umbanda não deve se abalar por causa de uma casa, uma construção. Não somos como a maioria das religiões que adoram seus templos de pedra, pois sabemos que a força está em nós e no mundo a nossa volta.

Não devemos cobrar de ninguém aquilo que ele ainda não está preparado para dar. Muitos irmãos deixam a desejar, mas talvez esse irmão de tudo de si e parece pouco aos nossos olhos, mas aos olhos do criador pode ser mais do que pensamos.

Eu jamais terei vergonha da minha Umbanda e nem dos meus irmãos, porque não estou aqui para julgar ninguém e sim para fazer minha parte sem nunca me permitir cansar, e nunca me permitir desanimar.

Eu entendo perfeitamente o que você está sentindo mas te aconselho humildemente que em nome da Umbanda não desanime, a Umbanda precisa de pessoas interessadas e pelo que vejo você é assim

Obrigada
Claudia de Iemanjá

Julio mallmann Dirigente Espiritual disse...

não estas sozinho nesta caminhada volta e meia faço desabafos deste tipo aos meus pois tento de toda forma praticar o que aprendi com minha dirigente espiritual que já fez a passagem ISABEL (Ogum Mege e Iemanjá)sendo o mais fiel possível aos fundamentos da fundação da umbanda ;sou do templo mamãe Oxum da cachoeira e pai Ogum das matas de Porto Alegre Rio Grande do Sul

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