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SOBRE O IBGE

ETIENE SALES


“...Atualmente a Umbanda surge como um fenômeno social de maior importância, dado se “mysteriu” (conjunto de doutrinas e cerimônias religiosas que só eram conhecidas e praticadas pelos iniciados. Objeto de fé ou dogma religioso que é impenetrável à razão humana, sendo somente explicado pela). Ninguém sabe quantos são os umbandistas na realidade. No censo de 2000 foram levantados que existem (declarados) 432.001 umbandistas no país. Porém, em contato com o Sr. Pedro Miranda, presidente da UEUB ( uma das Federações de Umbanda da Cidade do Rio de Janeiro) nos foi informado que existem associados a essa federação cerca de 5500 terreiros. Se formos fazer uma especulação e multiplicarmos por 30, levando em consideração que trinta poderia ser a média de médiuns de cada terreiro de Umbanda, teríamos em torno de 165.000 pessoas só em uma federação da cidade do Rio de Janeiro (existem cerca de 5 Federações, só na Cidade do Rio de Janeiro). Então, a conclusão que poderíamos chegar, é que existem muito mais umbandistas do que foi declarado no censo de 2000.

Mas onde eles estão?

Em 2001 auxiliei os pesquisadores que estavam fazendo a compilação dos dados do censo de 2000 do IBGE, no item religião.

Ao indagar “Qual a sua religião”, o IBGE recebeu cerca de 35 mil respostas diferentes que buriladas resultaram em 5000...

Os pesquisadores estavam um pouco confusos, pois estavam encontrando respostas estranhas no item destinado a declaração de religião, principalmente em relação a Umbanda, ao Espiritismo e a outras religiões. Foram encontradas respostas para “Qual é a sua religião” como:

Espírita Umbandista;
Espírita Cristão;
Umbandista Cristão;
Umbandista Espírita;
Católico Umbandista;
Católico Espírita.

Como tudo na vida, mesmo na pesquisa, se acha uma maneira de resolver os problemas, foi o que aconteceu em relação ao censo de 2000. Porém, as declarações encontradas revelaram mais do que o tradicional sincretismo, muito badalado pelos sociólogos e antropólogos ao longo do tempo. Revelam que muitas pessoas se consideram membros, ou parte, de mais de uma religião ao mesmo tempo, evidenciando um fenômeno em que o sincretismo é só uma vertente, ou mesmo um sintoma. Podemos dizer que é um fenômeno de dupla religiosidade, pois as pessoas que se declaram como membros de duas religiões, por exemplo, como Espírita Umbandista, vivendo ao mesmo tempo duas realidades religiosas diferentes (com alguns pontos doutrinários em comum, mas muitos outros totalmente divergentes), porém, em sua manifestação de espiritualidade, em sua prática religiosa, se transformam em uma só manifestação de fé.

“Em uma pesquisa realizada pelo CERIS – Centro de Estatística Religiosa e
Investigações Sociais – nas seis maiores regiões metropolitanas brasileiras,
cerca de 25% dos entrevistados disseram freqüentar mais de uma religião e cerca
de metade deles (12,5% do total) o fazem sempre. O Censo não considera esses
fenômenos de dupla (ou mais...) religiões, de mistura de várias religiões.
Dificilmente um sociólogo ou um antropólogo reduzirá os adeptos de Umbanda
e Candomblé, em todo o Brasil, a pouco mais de 570.000 indivíduos (0,33% da
população), como faz o Censo 2000. Certamente há muitas pessoas freqüentando
estes cultos, ao menos ocasionalmente, mas que não se declaram umbandistas”.
(Pe . Alberto Antoniazzi, “As religiões do Brasil segundo o censo 2000” In
Rever, número 2-2003-pp. 75-80, ISSN 1677-1222).

Talvez aí esteja a resposta à pergunta que fizemos anteriormente: Onde estão os Umbandistas? Escondidos atrás de outras religiões como o Catolicismo e o Espiritismo. Em que a pessoa por ignorância, medo (do preconceito pessoal ou social), ou por se acharem mais Católicas ou Espíritas, do que Umbandistas, declarando como membros dessas religiões (ou misturam essas religiões com o ser Umbandista), mas que, no final das contas, têm suas vivências religiosas dentro dos terreiros de Umbanda.

De uma certa maneira, é o que constatamos em uma pequena pesquisa realizada com os médiuns do Centro espírita São João Batista, no ano de 2002, em decorrência do que notamos nas compilações iniciais do censo de 2000.

Embora o universo pesquisado fosse pequeno, 45 médiuns do centro, o resultado foi muito interessante, mostrando um reflexo do que havia acontecido no censo de 2000.

Ao perguntarmos aos médiuns do Centro Espírita São João Batista qual era a sua religião, obtivemos as seguintes respostas:

Espírita- 12
Católico e Umbandista- 10
Católico Espírita – 1
Espírita Umbandista – 7
Umbandista – 15

Dos 45 médiuns do Centro, apenas 15 médiuns (33% do total) se declararam umbandistas, ou seja, 30 médiuns (67% do total) não se acham Umbandistas ou colocaram a Umbanda como uma religião secundária em sua crença.

Não nos cabe tentar esgotar ou aprofundar esse assunto em nosso trabalho, mas deixamos registrado que o mesmo merece ser pesquisado com maior profundidade.

Em 2007, uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha publicada em um caderno especial na edição da Folha de 06 de maio, verificou que o número de Umbandistas estaria em torno de 1% da população brasileira. Algo entre 2 milhões e 2,1 milhões de pessoas. Algo bem maior do que a pesquisa realizada no senso de 2000.

Ou houve um aumento significativo do número de Umbandistas, ou uma parte dos Umbandistas começou a assumir sua religião, e a não mais se declarar como católicos ou espíritas.

Talvez a realidade atrás desses novos números seja uma soma de fatores, tais como: a difusão de informações através da Internet (sites, blogs, listas de discussão, chats e outros mecanismos de comunicação existentes na Internet) que começou a romper inúmeros tabus e preconceito entre os Umbandistas; um aumento no número de autores umbandistas que começaram a publicar seus livros; um maior contato entre as Federações de Umbanda, através de palestras, encontros e ritos públicos (giras) de confraternização; a criação da primeira Faculdade de Teologia Umbandista – FTU – trazendo para o meio acadêmico uma nova discussão sobre a realidade da Umbanda, enquanto religião plural e com embasamento teológico; a criação do CONUB, com o propósito de minimizar e de se fazer reconhecer o respeito e a diversidade existente entre as várias ramificações ou escolas filo-doutrinárias que existem dentro da religião de Umbanda.

Esses fatores mostram que a Umbanda começa a se estruturar dentro do respeito a sua pluralidade de cultos, doutrinas e ritos, e que os Umbandistas caminham para uma visão de união da diversidade.

Uma nova caminhada se mostra diante dos umbandistas, que não é a imposição doutrinária ou a unificação de cultos, como foi o objetivo do primeiro Congresso de Umbanda (1941), e que só motivou o conflito e a dispersão das pessoas. Mas, sim, uma nova visão de sustentação da religião, respeitando e entendendo sua diversidade, na busca concreta de alcançar objetivos comuns, que não passam mais pelas diferenças doutrinárias, mas por iniciativas que possam agregar a busca de uma união de interesses voltados, cada vez mais no sentido de melhorar a condição dos seres humanos e da nossa sociedade como um todo.

Do livro “Umbanda de Preto Velho” - Etiene Sales de Oliveira- pag. 60-63
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